segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Pensamento Político: Uma visão sobre as idéias petistas.

Pensamento Político: Uma visão sobre as idéias petistas.
"Antes do surgimento do Partido dos Trabalhadores, a esquerda brasileira ainda tinha parâmetros que vinham do passado e significam adesão aos perigosos mecanismos da certeza absoluta, das fórmulas prontas e impositivas, nascidas do seio do marxismo oficializado e revestido de um dogmatismo que, sufocando o debate livre, impedia a análise da realidade.Em todo caso, vale lembrar que o surgimento do PT estava intimamente ligado a ruptura de um modelo econômico baseado na intervenção do Estado na economia, as grandes obras de infra-estrutura preparavam o país para o novo século, o “boom” econômico dos anos 70 não se expressava mais com tanta força, e o crescente descontentamento da classe média com as medidas oficiais vislumbrava um futuro profundamente atrelado a princípios democráticos[1].Lógico que essa conjuntura era expressa pela crescente inflação e endividamento externo e interno, e a crise do petróleo veio precipitar uma série de incidentes econômicos no mundo, o capital precisava circular livremente. Após a segunda guerra o capitalismo assumiu outra forma de aumentar seus dividendos, o valor do papel moeda, não era mais medido pelo lastro econômico e sim pela quantidade que esse mesmo valor poderia obter com juros. A ciranda financeira precisa abolir as fronteiras nacionais para livre circulação de moedas e idéias[2].Antes de evoluirmos na direção da compreensão do PT, sobre seus motivos e reivindicações, é necessário relatar o período da história em que as concepções eram tachadas de “dogmas” e “pré-concebidas”, jargões amplamente utilizados pelos petistas em sua fundação.Obviamente que não cabe a esse trabalho elucidar todas as questões levantadas, mas é pertinente considerar que a sociedade, queira uns ou não, é dividida em classes sociais com objetivos distintos e antagônicos. Essa é na verdade todo ponto de partida e chegada da teoria, sejam elas oficiais ou não, aceitas em todo ou apenas em parte.Nesse sentido a utopia de criar uma sociedade sem patrões e empregados, sem senhores e servos, sem opressores e oprimidos vem desde a modernidade sendo longamente e exaustivamente discutido por intelectuais e teóricos das mais diferentes escolas[3]. Podemos citar as obras de Maquiavel no sentido de ordenar e civilizar a sociedade de sua época, ou mesmo Hobbes com seu contrato social, seguido de Locke, Rousseau e tantos outros que de uma forma ou outra contribuíram para construção de elementos de controle social, sem os quais o homem certamente “comeria a si próprio”.Por outro lado, o desenvolvimento da ciência impulsionou a elaboração de técnicas mais bem definidas de método de pesquisa para as ciências sociais, era necessário justificar a tomada de bens da igreja para o estado, criando assim condições de separação do poder temporal do poder político. Essa separação possibilitou primeiramente para a Inglaterra, com sua revolução liberal e depois para a Europa condições materiais para consolidação de novos modelos econômicos, que mais tarde com a revolução francesa jogaria a humanidade na modernidade.A revolução industrial, por sua vez consistia na consolidação dos princípios liberais ingleses e da liberdade política francesa, mas de um modo ou de outro, a humanidade apenas observava a permuta de poder entre senhores feudais e capitalistas.O crescimento das cidades provocou contradições no sistema que possibilitou a construção mais objetiva da consciência de classes, o surgimento de entidade de classe para reivindicar melhores condições de trabalho e renda, redução da jornada de trabalho e regulamentação do trabalho infantil, bem como acesso à educação, saúde e saneamento básico.Como se vê, as lutas de uma época se transportaram para nossa. Cabe observar que as teorias que moveram a classe operária no século XVIII, movem até hoje muitos sindicatos, estabeleceu-se na verdade campos distintos de batalhas entre ricos e pobres, para usar uma nomenclatura mais usual hoje em dia[4].O manifesto comunista[5] acabou por se traduzir em uma fórmula de luta para os explorados; e Marx seu líder intelectual. Pode-se considerar que as teorias elaboradas por Marx consistiam basicamente em superar o modelo econômico do regime capitalista por um regime onde a propriedade, logo os meios de produção seriam socializados. Essa superação de sistema se daria basicamente por duas formas.A primeira seria o levante do operariado contra os governos burgueses, instaurando uma ditadura do proletariado e dessa forma construiria o estado operário. Nesse caso, Marx alertou sobre a possibilidade de se verificar as condições objetivas da tomada de poder, que seriam as contradições econômicas irreconciliáveis, nesse mesmo campo Marx estudou profundamente a exploração da mais-valia, por outro lado era necessário ter também as chamadas condições subjetivas que seriam a capacidade da classe trabalhadora em se organizar e agir centralizadamente.A partir da tomada de poder, via revolução, os organizadores da classe operária se transformariam no estado operário que trabalharia para amenizar, diminuir e até mesmo abolir o estado, pois Marx acreditava que com o fim da luta de classe não existiria necessidade de um estado, mas isso é assunto para outro trabalho.A segunda alternativa seria a própria evolução das forças produtivas que culminaria dialeticamente com o fim de sua anarquia possibilitando dessa forma sua organização. Esse aspecto deve ser mais bem compreendido. Segundo Marx a base de produção era desorganizada, anárquica, ou seja, não estabelecia-se de fato fatores condicionantes para circulação, produção e consumo, logo, as cíclicas do processo iriam para altos e baixos, e nos momentos de crise, somente a organização da produção poderia dar cabo a demandas do próprio sistema. Essa lógica faz o capitalismo caminhar a passos lentos para seu fim.A partir dessas duas teses os partidos operários começaram o debate, se por um lado à luta pela revolução se dava para aqueles que queriam a luta já, imediata, vale lembrar que muitos períodos revolucionários acorreram nessa época, culminando na Revolução Russa de 1917. Outros admitiam a luta, mas não consideravam às condições objetivas ou subjetivas ideais para uma ação ou ato direto[6].Esse segundo contingente de intelectuais e burocratas sindicais, ou antigos anarquistas e pequeno-burgueses, acabaram por fornecer elementos, sempre justificado-os pela contestação do sistema produtivo. Em todo caso, saiam daí social-democratas, trabalhistas, marxista-cristãos, eurocomunistas, ecológicos, e esses mesmos grupos dividiram-se e outros evoluíram para a Direita, chegando alguns casos extremos. Por outro lado, estes se colocavam de um ponto de vista da luta de classes embora numa perspectiva evolucionista e reformista, limitavam-se suas atividades na organização de sindicados e de greves, na participação eleitoral e parlamentar e na propaganda.Fora às discussões acerca de que lados estão sentados na assembléia, se mais ao centro ou mais à extremidade, seja de direita ou de esquerda, outras discussões expressarão melhor o debate entre moderados e radicais, entre partido de massas e partido de quadros, entre movimento de ação revolucionária e movimento espontâneo das massas, entre reformas e revolução, entre centralismo e “adesão por solidariedade”, enfim, dos temas que servirão de base para discussão interna a formação do PT, mas incontestavelmente esses debates fizeram parte do cotidiano petista nas décadas de 80 e 90, como veremos no próximo item.
[1] OLIVEIRA, Isabel Ribeiro de; SOUZA, Gómez de. Trabalho e Política: As origens do Partido dos Trabalhadores. Ed. Vozes. Petrópolis, 1988.[2] Marx, K. Contribuição à Crítica da Economia Política. Segunda Edição, São Paulo, Martins Fontes, 1983[3] Tragtenberg, Maurício. Reflexões Sobre o Socialismo. 3a. edição, São Paulo, Moderna, 1989[4] Tragtenberg, Maurício. Reflexões Sobre o Socialismo. 3a. edição, São Paulo, Moderna, 1989[5] MARX, Karl, 1818 – 1883. Manifesto Comunista/ Karl Marx e Friedrich Engels, comentado por Chico Alencar. Rio de Janeiro: Garamond, 1998[6] MARX, Karl, 1818 – 1883. Manifesto Comunista/ Karl Marx e Friedrich Engels, comentado por Chico Alencar. Rio de Janeiro: Garamond, 1998[7] OLIVEIRA, Isabel Ribeiro de; SOUZA, Gómez de. Trabalho e Política: As origens do Partido dos Trabalhadores. Ed. Vozes. Petrópolis, 1988.












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